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A censura, João Bosco e Aldir Blanc: A história da música “O Mestre-Sala dos Mares”

João Bosco e Aldir Blanc. A junção desses dois grandes nomes, resultou em grandes clássicos da MPB, mas em especial uma canção chama a atenção, não apenas pela riqueza harmônica ou toda a cadência do violão de Bosco, mas sim pela história que ela carrega.

A canção em questão é uma das mais conhecidas da dupla, de nome “O Mestre-Sala dos Mares“. A letra é uma homenagem a João Cândido Felisberto, mais conhecido como “O almirante negro“.

Mas quanto ao nome da canção? Até que este fosse dado como definitivo e a mesma fosse aprovada pela censura, teve enredo, vamos lá…

João Cândido liderou o movimento conhecido como “A Revolta da Chibata“, que resultou em um motim ocorrido entre as datas de 22 e 27 de novembro do ano de 1910, na Baía de Guanabara, localizada na cidade do Rio de Janeiro.

O que motivou, e também foi responsável por batizar com este nome o movimento, foi a indignação de um grupo de marinheiros com os rígidos castigos físicos a eles impostos; onde em casos tidos como graves, usavam da violência das chibatas. Os militares envolvidos ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro caso algo a respeito não fosse feito. A Revolta acabou com a rendição dos militares envolvidos, onde ocorreu o desarmamento dos navios, com bases em um decreto de anistia adquirido junto ao governo.

Cerca de duas semanas depois, houve o que foi chamado de segunda revolta, sem nenhuma ligação com Candido e seus demais companheiros, resultando na morte de marinheiros indefesos e a expulsão de tantos outros, dentre estes, João Candido; que foi detido e levado ao cárcere na Ilha das Cobras, sob acusação de favorecer fuzileiros rebeldes. Após certo período, Cândido foi dado como louco e transferido para o “Hospital dos Alienados“, vindo a ser preso novamente, até que enfim foi inocentado.

João foi discriminado e marginalizado até sua morte, no ano de 1969, e tendo em vista uma vida de tantos percalços, não há de se admirar o fato dos compositores terem tomado a decisão de compor, cerca de um ano após sua morte, a bela homenagem em forma de canção.

Como de praxe na época, tudo devia passar pelo crivo da censura, mas mesmo assim foi de se admirar que a canção tivesse por tantas vezes sido barrada pelos censores.

Buscando de alguma maneira se “adequar” às “normas impostas”, os compositores realizaram uma série de alterações na letra, chegando a inclusive alterar o nome da canção, de “Almirante Negro” para “Navegante Negro“, no intuito de que não houvesse nenhuma ligação a uma patente militar, mas eis que o real motivo que não permitia a liberação da música, foi enfim conhecido…

Em uma das tantas tentativas, Aldir Blanc, afirmou ter ouvido de um dos censores que o motivo real era simples, o preconceito racial. A quantidade de vezes em que a palavra “negro” aparecia na música, inclusive nos dois títulos iniciais, já seria o suficiente para que a canção talvez jamais fosse tida como “apta” pelos censores.

Os autores acabaram por alterar o título para este que hoje conhecemos e a canção se tornou um estrondoso sucesso não apenas na voz de João Bosco, mas também de Elis Regina.

Segue abaixo letra da canção “O Mestre-Sala dos Mares”:

O mestre-sala dos mares
(João Bosco / Aldir Blanc)

Há muito tempo nas águas
Da guanabara
O dragão no mar reapareceu
Na figura de um bravo
Feiticeiro
A quem a história
Não esqueceu
Conhecido como
Navegante negro
Tinha a dignidade de um
Mestre-sala
E ao acenar pelo mar
Na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por
Batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam
Das costas
Dos santos entre cantos
E chibatas
Inundando o coração,
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro
Gritava então
Glória aos piratas, às
Mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça,
Às baleias
Glórias a todas as lutas
Inglórias
Que através da
Nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais.

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Jonn Nascimento
Produtor musical, músico, pesquisador e "aquele tal de Roque Enrow".
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