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“Aquarela Brasileira” – Império Serrano e o Carnaval de 1964.

“Vejam essa maravilha de cenário:
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval…”

Exagero nenhum dizer que “Aquarela Brasileira“, figura dentre as mais belas obras da história de nossa música.

Composto por Silas de Oliveira, foi o samba-enredo que a agremiação G.R.E.S Império Serrano, levou para a avenida no ano de 1964. Mas há muita história a se contar sobre este enredo…

Necessário voltar um pouco mais no tempo, mais precisamente no ano de 1939, quando Ary Barroso, compôs para um espetáculo teatral, uma das canções que viria anos depois a se tornar uma espécie de hino popular brasileiro, “Aquarela do Brasil“, porém não foi sempre assim. Logo que lançada, a canção não obteve de imediato o tamanho sucesso que viria a alcançar com o passar dos anos, sendo regravada e interpretada por grandes nomes não só da nossa música, mas do mundo inteiro; tendo como exemplo Ray Conniff, Os Três Tenores e o grupo feminino de Disco Music, The Ritchie Family.

Voltando ao Carnaval de 1964. O enredo defendido pela tradicional escola de samba, que tem suas raízes e sede localizada no suburbano bairro de Madureira, berço do Samba carioca, levava-nos a realizar uma linda viagem pelas regiões do Brasil, enaltecendo a imensidão e riqueza da fauna, flora e cultura de uma nação; com orgulho e alegria, pouco tempo antes do duro golpe sofrido que levou este mesmo povo a viver os anos de chumbo do Regime Militar.

Mas qual a ligação? Sim! Partiu da agremiação uma homenagem à obra supracitada de Ary Barroso, que com maestria pelas mãos de Silas de Oliveira foi retratada no lendário samba-enredo.

Rio de Janeiro, nove de fevereiro; outros fatores levaram esta data a de fato entrar para a história e marcar mais um emblemático capítulo na história do Carnaval, consequentemente do Samba.

Era dia de domingo, os desfiles tinham como local a Candelária e a Avenida Presidente Vargas, sendo a agremiação a terceira a desfilar naquela data. Pela primeira vez o Carnaval teve como interprete, para muitos “puxador de samba” e que o mestre Jamelão não me veja usar este termo, uma mulher; Carmen Silvana.

Carmen Silvana e Silas de Oliveira

Um triste e determinante fator, mudou o rumo daquela disputa. O Império Serrano amargou um quarto lugar, mas garantiu um lugar na história.

Era chegada a hora do desfile, mas eis que surge uma bomba; a morte de Ary Barroso, vitimado por um quadro de cirrose hepática. O grande compositor faleceu em meio ao Carnaval, naquele fatídico nove de fevereiro e teve sua morte anunciada justamente antes daquele que seria um enredo que homenagearia sua maior obra, ter sua apresentação iniciada.

Em sinal de luto, a bateria silenciou por alguns instantes, o suficiente para que a escola perdesse pontos, que talvez tenham sido o fator que veio a lhe custar o título daquele Carnaval…

Silas faleceu no dia 20 de maio do ano de 1972, onde em meio a uma roda de samba, sofreu um infarto fulminante.

O troféu de campeã do ano de 1964, não está na grandiosa galeria de conquistas da Império Serrano; mas com o passar do tempo justiça foi feita e veio o reconhecimento histórico, envolvendo esse grandioso capítulo. Silas teve sua canção imortalizada e carrega, sendo dito por muitos, o título de maior compositor de samba-enredo de todos os tempos.

A campeã daquele ano foi a G.R.E.S Portela, só para constar…

Abaixo o samba cantado por sua interprete original.

 

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Jonn Nascimento
Produtor musical, músico, pesquisador e "aquele tal de Roque Enrow".
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